domingo, 8 de fevereiro de 2009

Castelo Rodrigo, Uma aldeia onde se fazem as pazes com o passado


“Leio nas pedras um escuro soluço cheia de rios, paisagens e cores
mas engano-me sempre ao copiá-lo”

Eugénio Montejo, Alfabeto do Mundo


Quando subirmos esta encosta encontraremos, certamente, uma rua e depois da rua um caminho que não saberemos ao certo onde irá dar, mas por ora também não é o que mais importa. Importa sim, que se a nossa vontade assim o desejar, qualquer um de nós poderá ser peregrino de alguma coisa, fazendo das rotas da nossa própria história uma duradoura travessia, um olhar sobre o lado invulgar e primitivo, aquele que descobre a natureza de todas as coisas nos sinais que nos foram legados outrora.


Parando um pouco, antes de subir a estrada que nos leva ao povoado de Castelo Rodrigo, respira-se o silêncio e a imobilidade do tempo, fazem-se as pazes com o nosso passado, feito nem só de misérias e nem só de glórias, mas de gentes que moldaram a nossa história e dos lugares que construíram a nossa memória.

Partindo à descoberta do interior da pequena aldeia, deserta durante o dia, o olhar tem alguma dificuldade em vislumbrar a Cabeça do Mouro, que só olhos atentos conseguem descortinar numa hora que o Sol se encontre a Poente. Para trás, vindos do Convento de Santa Maria de Aguiar, deixámos o Longo da Forca, que alguns autores crêem ter existido aí esse “terrível objecto” de Justiça, mas que ao atentarmos no local não se encontram provas evidentes da sua existência. Um pouco acima, em direcção a Castelo Rodrigo, muito provavelmente a uma curta distância ficaria a Igreja de S. Salvador, referenciada em 1758 pelo Padre Lourenço Ferreira como a do «Calvário», embora não exista actualmente qualquer vestígio, mas bem visível no Livro das Fortalezas de Duarte D’Armas, aliás como outra que se destaca na mesma ilustração, mas de igual modo sem vestígios, tratando-se da Capela de S. João, que dá nome ao largo que hoje se conhece como o do Cruzeiro, e que como alguns autores também crêem, terão sido deslocadas para a actual Igreja Matriz, o altar da Senhora do Rosário, bem como outras imagens a essa Capela pertencentes. Obras duma arte que hoje o visitante mais devoto não pode contemplar, mas do tempo ficaram testemunhos das histórias, das pedras dos séculos que espantam o visitante mais atento assim que passa o Arco e entra na Rua do Relógio e entrevê de imediato a torre que sustenta o actual relógio que veio substituir um mais antigo de martelo e pesos de granito. Chegaram estes relógios a Portugal, muito provavelmente no séc. XVI. Este relógio veio por sua vez substituir os ainda mais velhos relógios de Sol que em Castelo Rodrigo cremos existir um único exemplar, na parte traseira da Casa da Roza.

Seguindo o percurso pela Rua da Praça, topónimo que se mantém incógnito na sua verdadeira origem, encontram-se um pouco mais adiante, digno de quem o queira contemplar, o Pelourinho, de seu estilo Manuelino, “símbolo de justiça de tempos remotos”, que muitos viam como um marco de castigo mas esqueciam o símbolismo que se traduzia em autonomia e muita propriedade na administração e autoridade local. Este pelourinho declarado Monumento Nacional em 1922, foi recentemente alvo de limpeza e manutenção.

Muito próximo deveria de existir e segundo a voz popular, o exemplar de uma Roda dos Expostos, que ainda hoje carece de explicação, bem como a Misericórdia que ainda hoje dá o seu nome a uma
das ruas da aldeia. A Igreja Matriz ou de Nossa Senhora do Rocamador (onde se destaca uma escultura policromada de Santiago Matamouros, vestido à moda da nobreza e pisando a figura dum guerreiro mouro), foi erigida pelos Hospitalários ou numa outra versão, pela da Ordem de Notre Dame du Reclamateur ou Rocamadour, originária em França e que terá sido introduzida em Portugal através do auxilio que os cruzados normandos terão concedido a D. Sancho I na conquista de Silves, importante reduto mouro. O mesmo rei terá feito importantes doações à Ordem de Santa Maria de Roca Amador, que tinha por missão a assistência aos enfermos em hospitais e albergarias e fundadora das Misericórdias. Obra de vulto então, que permaneceu até aos nossos dias, a Igreja Matriz foi construída por esta Ordem tendo em vista a assistência aos peregrinos que se dirigiam a Santiago de Compostela, que depois de restabelecidos tomavam o seu caminhos pela Serra da Vieira, símbolo dos viandantes para o Campo das Estrelas, Campus Stelea.


Mas se o nosso viajante ainda se encontra no interior de Castelo Rodrigo, povoado por Rodrigo Gonzalez de Girón e sobe agora até ao largo de S. João, encontrava, até há pouco tempo (saliente-se que está em recuperação desde Agosto de 2008), o Padrão Comemorativo que assinalava a heroicidade de Castelo Rodrigo na Guerra da Restauração e foi inaugurado em Julho de 1940 com a inscrição “Honra e Glória a Castelo Rodrigo”. Neste largo em que o viajante desfruta duma inesquecível paisagem sobre a Serra da Marofa e em dias mais claros a própria Serra da Estrela e o horizonte que ela abraça, bem como terras de Espanha e seus altos montes. E refeito o espirito, descemos pela Rua da Sinagoga, também outrora conhecida pelas antigas corruptelas como Esnoga ou Sinoga, ao fundo da rua encontramos a Cisterna teria sido destinada à função de banhos litúrgicos dos Judeus ou Mikwéh, embora a localização da própria sinagoga talvez seja mais polémica, construindo-se sobre o seu local apenas meras hipóteses. No entanto terá sido esta rua e a actual Rua do Pátio ou da Igreja, um importante núcleo judaico. Até há bem pouco tempo ainda existiam vestígios das trancas das portas da judiaria, que provavelmente se situaria ao fundo da Rua do Pátio: “Quando o sino da torre da Igreja Matriz “tocava as trindades” os judeus tinham que recolher a suas casas, sendo fechadas as portas da judiaria. Pela manhã eram abertas após o toque das “Avé Marias”, abrindo-se de novo as portas e podendo dedicar-se aos seus múltiplos afazeres”. Calculavam-se por 300 os judeus moradores nesta vila por volta de 1496.

Subindo a tão bela como nostálgica Rua da Cadeia, uma das mais emblemáticas vias da aldeia, que terá albergado aquela instituição até muito depois da elevação de Figueira de Castelo Rodrigo a sede de Concelho conforme retrata a acta da sessão de 22 de Junho de 1856:
“Não havendo nesta vila (Figueira de Castelo Rodrigo) uma Cadeia para recolher os presos criminosos, e a que há na actualidade de ser na extinta vila de Castelo Rodrigo, daqui distante meia légua, mas pela sua antiguidade um tal estado arruina que quási anualmente dispende nesta Câmara vinte ou trinta mil réis para fazer compôr o que se vai obstruindo, assim mesmo os presos mal abrigados na estação invernosa, e para não se evadirem, nos poucos dias que nela se demorão, ser mister lançar-lhes ferros aos pés, contra todos os deveres da umanidade ...”


Encontram-se nesta rua traços de grande relevo para a memória da aldeia, como sejam uma casa com janela de estilo manuelino e uma outra com inscrições árabes. E daqui sobe-se a Rua da Calçada, vestígio impar do período Romano que permaneceu até aos nossos dias e por aqui se regressa à Rua do Relógio que também não destoaria se se chamasse do Palácio de Cristóvão de Moura, I Conde de Castelo Rodrigo, nascido em 1538 e falecido em 1613 e de nome Cristóbal de Moura y Távora. Este foi camareiro-mor de Felipe II, conselheiro de Estado, embaixador em Portugal em 1579, tendo sido Vice-Rei de Portugal entre 1598 e 1613. Em 1607, Felipe III concedeu-lhe o titulo de I Marquês de Castelo Rodrigo com grandeza de Espanha. O que sobrou do Paço de Cristóvão de Moura, até há algum tempo património abandonado, encontra-se hoje recuperado das suas luzes fantasmagóricas por obras de beneficiação e recuperação por parte de diversas entidades públicas, albergando na sua entrada o posto de acolhimento ao turista, que nas pedras desnudadas pela memória dum povo, encaminham o viajante, no aprofundamento da história que envolve este belíssimo exemplar vivo da nossa história, ou para nos deixarem respirar o próprio mistério que envolve as ruínas e nos faz recuar a um tempo que só o silêncio sabe recriar.



Nota: O presente texto, que data de 2005, com as devidas actualizações, não aponta em nenhuma direcção em particular, senão a de proporcionar em linguagem corrente, o que os complexos tratados da história tão abundantes, como inexplorados, são exímias testemunhas do nosso passado; mas, e até pela falta de experiência académica, nesta área particular, sinto-me impedido de concorrer com os investigadores e doutos professores da nossa história… daí, que apenas por dever que sinto para com esta terra que amo, coloco à disposição este texto, original próprio, nunca editado. Obrigado pelo impulso que os Verdadeiros Amigos de Castelo Rodrigo, poderão fazer e trazer, num futuro que se espera breve, a esta terra. A história desta terra, que se buscará no futuro, está assente em grande medida no que somos e fazemos hoje, sem busca imediata de benefícios próprios, mas de olhos postos no Castelo Rodrigo que deveremos desejar que os nossos descendentes se orgulhem… O que fizermos, eles não esquecerão, para o bem ou para o mal!

João Paulo Sousa
Castelo Rodrigo, 2009
(Nota: O texto como as fotos foram exclusivamente cedidos as este blog, em particular aos seus utilizadores, pelo que não deverá em qualquer caso ser utilizado para fins comerciais sem autorização do autor ou dos administradores deste blog! Obrigado, por não fazer copy/paste; ponha-se ao caminho...)

Sem comentários:

Enviar um comentário